Mudanças Climáticas e Alergias
Riscos Invisíveis para a Saúde Pública
Em um minuto:
- Mudanças climáticas e saúde: o aquecimento global, aliado à poluição e à urbanização, está associado ao aumento do número de casos de doenças alérgicas, como rinite e asma, afetando bilhões de pessoas no mundo.
- Mais pólen no ar: com temperaturas mais altas e mais CO2 na atmosfera, as plantas produzem mais pólen, por períodos mais longos, aumentando as crises alérgicas.
- Períodos críticos mais longos: as estações de pólen estão começando mais cedo e terminando mais tarde, ampliando a duração e a intensidade das alergias.
- Poluição e incêndios florestais: fumaça e material particulado liberados por queimadas, além de poluentes urbanos, podem aumentar as inflamações nas vias respiratórias e piorar quadros de rinite, asma e outras alergias.
- Soluções de mitigação e adaptação: é essencial reduzir emissões, fortalecer os sistemas de saúde pública, monitorar o ambiente e planejar áreas verdes escolhendo espécies que não agravem as alergias, tornando as cidades mais saudáveis.
Além dos impactos ambientais, as mudanças climáticas representam uma ameaça crescente e, muitas vezes, invisível à saúde humana. Diversas evidências demonstram a correlação direta entre o avanço da emergência climática e o aumento na incidência e severidade das doenças alérgicas, como asma e rinite.
O aquecimento global, aliado à piora da qualidade do ar e à urbanização acelerada, contribui para o crescimento expressivo dos casos de alergias em todo o mundo. Dados de estudos epidemiológicos indicam que, ao longo das últimas décadas, houve crescimento significativo na prevalência de doenças alérgicas, que podem atingir até 4 bilhões de pessoas até 2050. Os grupos mais vulneráveis são crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias pré-existentes, como asma, rinite e sinusite.
De forma geral, as doenças alérgicas são respostas exageradas do sistema imunológico a substâncias normalmente inofensivas, conhecidas como alérgenos, como pólen, ácaros e poluentes. Quando pessoas sensíveis entram em contato com esses agentes, o organismo delas reage de forma desproporcional, desencadeando processos inflamatórios que podem atingir diferentes partes do corpo, especialmente o sistema respiratório.
Entre as doenças alérgicas mais comuns que são influenciadas pelas mudanças climáticas estão a rinite e a asma. A rinite alérgica é uma inflamação da mucosa nasal que provoca sintomas como espirros sucessivos, coriza, coceira no nariz, olhos e garganta e congestão nasal. Estima-se que, atualmente, até 40% da população mundial sofra com a condição, e essa percentagem poderá aumentar em função da intensificação das mudanças climáticas. Já a asma é uma inflamação crônica das vias aéreas, caracterizada por tosse, falta de ar, chiado e sensação de aperto no peito, que podem se intensificar em períodos de maior exposição a alérgenos e poluentes. Ambas as condições vão além do desconforto físico: crises frequentes de doenças alérgicas podem comprometer a qualidade de vida das pessoas e afetar negativamente o desempenho escolar e profissional.
Além de favorecer o surgimento de novos casos, as mudanças climáticas estão associadas à intensificação dos quadros alérgicos. Esse fenômeno ocorre porque o aumento das temperaturas, combinado com o crescimento das emissões de gases de efeito estufa e com a poluição atmosférica, cria um ambiente mais propício para a produção e dispersão dos alérgenos. A própria poluição do ar também pode atuar como um agente potencializador dos processos inflamatórios no nosso organismo, tornando-o mais suscetível aos alérgenos já presentes no ambiente, como o pólen.
A questão afeta também o Brasil e pode representar um problema de saúde pública. Hoje, aproximadamente 30% da população brasileira já convive com algum tipo de alergia, segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai). Grandes cidades, como São Paulo, têm registrado prevalência de doenças alérgicas semelhantes às das principais metrópoles do mundo. Espera-se que, nos próximos anos, metade da população poderá sofrer com episódios recorrentes de crises alérgicas.
Conheça, a seguir, os principais fatores desencadeantes de alergias e sua relação com as mudanças climáticas.
Pólen e ciclos de polinização
Com o aquecimento global, as plantas crescem mais rápido, florescem antes e liberam maiores quantidades de pólen durante períodos mais longos. Consequentemente, com mais grãos de pólen, que é um dos principais alérgenos, circulando por mais tempo pelo ar, aumentam as alergias sazonais. Na prática, as mudanças climáticas provocam alterações nos ciclos de polinização, contribuindo para o aumento tanto da intensidade quanto da duração das temporadas de alergia.
Além disso, o CO2, um dos principais gases de efeito estufa, funciona como um “alimento” para as plantas, estimulando seu crescimento e a produção de pólen. Paralelamente, a poluição atmosférica pode alterar a composição dos grãos, tornando-os mais alergênicos. Em ambientes urbanos, essa combinação faz com que as plantas produzam mais pólen e com maior potencial de provocar alergias. Como consequência, quadros de rinite, conjuntivite alérgica e asma tendem a se tornar mais duradouros, prolongados e intensos.
Um exemplo extremo relacionado às crises alérgicas atribuídas ao pólen ocorreu em Melbourne, na Austrália, em 2016. Uma tempestade, ao interagir com enormes quantidades de pólen, fragmentou esses grãos em partículas minúsculas, capazes de penetrar profundamente nas vias respiratórias da população, e os espalhou. Os episódios de crise de asma desencadeada pela tempestade sobrecarregaram os serviços de emergência, levaram centenas aos hospitais e resultaram na morte de 10 pessoas. Esse tipo de evento massivo, embora raro, tende a se tornar mais provável à medida que o clima se torna mais quente, úmido e sujeito a extremos meteorológicos, como tempestades.
Em muitas cidades mundo afora, as estações de maior produção e circulação do pólen (estações polínicas) têm iniciado mais cedo e acabado mais tarde, expondo as pessoas a maiores riscos de desenvolver crises alérgicas recorrentes. Em Curitiba, por exemplo, uma pesquisa identificou que o ciclo de polinização das gramíneas do gênero Poaceae ficou mais longo e tem começado cerca de dois meses antes do que há algumas décadas. A tendência está associada às variações climáticas e à urbanização.
O agravamento das crises alérgicas causadas pelo pólen pode aumentar no futuro. Um estudo de 2022 para os Estados Unidos, por exemplo, projeta que, até 2100, as estações polínicas naquele país começarão até 40 dias antes e terminarão até 19 dias depois em comparação aos dias atuais, ampliando em até dois meses o período anual de exposição ao pólen.
No Brasil, a situação pode ser semelhante, especialmente na Região Sul, onde as alergias relacionadas ao pólen têm maior prevalência. De acordo com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, um em cada quatro adultos na região Sul apresenta sensibilização ao pólen, quadro que tende a se intensificar diante das mudanças climáticas. Além disso, a sensibilização ao pólen tem sido detectada já na infância, o que amplia a duração dos impactos associados a essas alergias ao longo da vida. O principal alérgeno no país é o azevém (Lolium multiflorum), uma espécie exótica de gramínea trazida por imigrantes europeus, que se adaptou muito bem ao nosso clima e prolifera descontroladamente, inclusive em áreas urbanas.
Variações de temperatura, poluição e incêndios florestais
As mudanças climáticas estão associadas à maior frequência de eventos extremos, como ondas de calor, frio repentino e variações bruscas de temperatura, que podem agravar os sintomas de alergias respiratórias, asma e dermatite. O aumento da frequência das variações bruscas de temperatura também pode afetar a qualidade do ar e a concentração de alérgenos.
Além disso, os incêndios florestais, cada vez mais comuns em função do aumento das temperaturas globais, liberam grandes quantidades de material particulado fino e substâncias irritantes. Esses poluentes podem penetrar nas vias respiratórias, elevar os processos inflamatórios e piorar quadros de rinite e asma, além de aumentar a predisposição a alergias, especialmente em populações urbanas já expostas a outros poluentes. Esses elementos, somados, reforçam a necessidade de monitoramento e adaptação das estratégias de saúde diante do cenário climático atual.
Estratégias de mitigação e adaptação
Não há formas eficazes de prevenir o desenvolvimento de alergias, mas é possível adotar medidas para controlar os sintomas e reduzir a exposição aos fatores agravantes. No contexto das mudanças climáticas, as estratégias de mitigação, como a redução das emissões de gases de efeito estufa, são fundamentais para limitar o agravamento dos impactos sobre a saúde pública.
Também é necessário fortalecer as políticas públicas de saúde, ampliando o monitoramento ambiental, a vigilância epidemiológica e o acesso ao diagnóstico e tratamento especializado. A antecipação dos impactos permite que os sistemas de saúde desenvolvam respostas mais eficazes, considerando o aumento previsto da carga de doenças alérgicas nas próximas décadas.
O planejamento urbano também pode ser um aliado ao incorporar critérios ambientais, incluindo a seleção de espécies adequadas para áreas verdes, considerando seu potencial alergênico. A composição do pólen e sua capacidade de induzir respostas alérgicas dependem de fatores como a espécie vegetal, o estágio de desenvolvimento da planta, as condições climáticas e os níveis de poluição. Esses fatores podem ser pensados de forma a limitar o potencial do ambiente urbano como amplificador dos agentes alergênicos, contribuindo para a redução da exposição da população e para a promoção de ambientes mais saudáveis frente às mudanças climáticas.
Em síntese, os efeitos das mudanças climáticas sobre as alergias demandam uma abordagem integrada, que combine ações de mitigação, adaptação e fortalecimento dos sistemas de saúde e do planejamento urbano, visando reduzir riscos e impactos sobre a população.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Mudanças Climáticas e Alergias: Riscos Invisíveis para a Saúde Pública. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/mudancas-climaticas-alergias. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #SaúdeRespiratória #Alergia #Rinite #Asma #QualidadeDoAr #SaúdePública #ClimaESaúde #SaúdeEClima
Fontes consultadas
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ALERGIA E IMUNOLOGIA (ASBAI). Primavera traz com ela a alergia ao pólen, e a Região Sul é a mais atingida. Disponível em: https://asbai.org.br/primavera-traz-com-ela-a-alergia-ao-polen-e-a-regiao-sul-e-a-mais-atingida/. Acesso em: 4 jun. 2025.
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