Da Transição Energética à Liderança Climática
O Potencial do Brasil no Novo Cenário Global
Em um minuto:
- Potência verde em construção: o Brasil reúne vantagens únicas, como a matriz energética predominantemente limpa, a grande biodiversidade e a capacidade industrial, que o colocam entre os países com maior potencial para liderar a transição ecológica global.
- Matriz energética e bioeconomia: com mais de 85% da sua energia proveniente de fontes renováveis e posição de destaque na produção de biocombustíveis, o país tem potencial de avançar em mercados como o de hidrogênio de baixo carbono, de biometano e de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF).
- Indústria: o Brasil figura entre os líderes mundiais na produção de insumos para as tecnologias “verdes”, como ferro, grafite e manganês, e tem potencial competitivo em setores-chave como de baterias, veículos híbridos, aço de baixo carbono e fertilizantes verdes.
- Entraves ao protagonismo: desmatamento, restrita capacidade de inovação, escassez de mão de obra qualificada e financiamento insuficiente ainda limitam a consolidação do país como potência climática e ambiental.
- Caminhos para avançar: superar esses obstáculos exige políticas públicas consistentes, foco em inovação, capacitação de profissionais e cooperação entre governo, setor privado e sociedade civil.
O mundo vive uma transformação profunda. Em resposta à emergência climática, cresce uma nova ordem global, centrada na descarbonização da economia e na transição ecológica. Os países que souberem aplicar, de forma estratégica e sustentável, seus recursos e capacidades à lógica da economia verde deverão ocupar posições de destaque nas próximas décadas. E, nesse cenário, o Brasil tem condições para estar entre esses protagonistas.
Quinto maior país em extensão territorial e a maior economia da América Latina, o país reúne um conjunto de ativos naturais e produtivos. Abriga, por exemplo, a maior biodiversidade do planeta, com biomas de relevância global como a Amazônia e a Mata Atlântica. Esses recursos naturais colocam o país em posição privilegiada para liderar a adoção de soluções climáticas baseadas na natureza. Estima-se que o Brasil detenha cerca de 15% do potencial global de mitigação ou remoção de carbono (o maior do mundo) por meio dessas soluções, que incluem a restauração de ecossistemas e o aumento do sequestro de carbono no solo a partir de práticas agrícolas sustentáveis.
Apesar de figurar como o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, o país ocupa uma posição-chave na luta global contra as mudanças climáticas e no avanço da transição ecológica. Segundo relatório de 2022 da McKinsey, a economia verde do Brasil pode movimentar mais de US$ 125 bilhões até 2040, impulsionada por fatores que conferem ao Brasil vantagens competitivas.
Entre os fatores que reforçam o protagonismo brasileiro, sua matriz energética predominantemente limpa é um dos principais. Mais de 85% da energia gerada no país vem de fontes renováveis, como hidrelétrica, eólica e solar. O Brasil está, também, entre os maiores geradores de empregos em energia renovável do mundo.
Além da energia elétrica, o Brasil também se destaca na produção de bioenergia. É o segundo maior produtor mundial de biocombustíveis, com uma tradição consolidada no uso do etanol como combustível veicular. Hoje, veículos híbridos flex, que combinam motores elétricos e a combustão com etanol, despontam no país como alternativa para a descarbonização dos transportes. O país ainda apresenta grande potencial para a produção e uso do hidrogênio de baixo carbono, do biometano e de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, da sigla em inglês) produzidos a partir de biomassa, mercados emergentes que podem movimentar bilhões de dólares nas próximas décadas.
O protagonismo brasileiro no novo cenário global se estende também à indústria. Um estudo do Net Zero Industrial Policy Lab, da Universidade Johns Hopkins, apontou o Brasil como um dos quatro países com maior capacidade de liderar a transição energética global graças à sua base industrial já consolidada, ao lado de China, Estados Unidos e Rússia. A análise identificou sete setores críticos para a economia verde em que o Brasil tem vantagens competitivas: minerais estratégicos, baterias, veículos híbridos com biocombustíveis, combustíveis sustentáveis de aviação, equipamentos para energia eólica, aço de baixo carbono e fertilizantes verdes.
No campo dos minerais críticos, o país se destaca como um dos maiores produtores globais de minério de ferro, grafite, bauxita (para alumínio) e manganês, insumos fundamentais para os processos relacionados à transição energética, como a produção de baterias. Além disso, o país é o terceiro maior mercado de energia eólica do mundo e se destaca como produtor de equipamentos industriais e exportador de bens manufaturados que podem atender à transição energética e ecológica, diferencial importante frente a outros países em desenvolvimento.
O Brasil também tem ampliado sua atuação climática em fóruns internacionais e, historicamente, tem demonstrado protagonismo no enfrentamento das mudanças climáticas. O país, por exemplo, é signatário da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima desde 1992. Neste ano, assumiu a presidência do BRICS, foro de cooperação política e econômica do Sul Global, impulsionando debates sobre as mudanças do clima. O país também sediará a COP30 em Belém e, em 2024, liderou grupos estratégicos no G20. Também foi um dos primeiros países do mundo a entregar a nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, da sigla em inglês), durante a COP29 em 2024, com metas para a descarbonização da economia. A NDC brasileira prevê a redução entre 59% e 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, em comparação aos níveis de 2005, compromisso que posiciona o país como referência na agenda climática global.
A combinação de abundância de recursos naturais, base industrial já estabelecida, matriz energética limpa e protagonismo internacional faz do Brasil um dos candidatos mais fortes à liderança da nova economia verde e das ações climáticas globais. Mas para transformar o potencial em realidade, será preciso enfrentar obstáculos de ordem econômica, institucional e tecnológica.
Obstáculos à liderança: o que falta para o Brasil cumprir seu potencial?
Apesar do conjunto de vantagens, o caminho do Brasil rumo à liderança climática global não está isento de entraves.
O primeiro grande obstáculo está nas emissões de gases de efeito estufa relacionadas, sobretudo, ao desmatamento. O Brasil figura entre os sete maiores emissores do planeta, e cerca de metade dessas emissões vêm do desmatamento, principalmente na Amazônia. Para que o país seja reconhecido como potência ambiental, será preciso enfrentar de forma consistente o desmatamento ilegal e garantir incentivos à produção agrícola sustentável.
Outro ponto crítico está concentrado na base industrial. O relatório elaborado pelo Net Zero Industrial Policy Lab, da Universidade Johns Hopkins, aponta que, apesar do lançamento da Nova Indústria Brasil (NIB) em 2024, que prevê investimentos superiores a R$ 300 bilhões para o desenvolvimento industrial do país, o plano ainda carece de foco estratégico. A pulverização de recursos em múltiplas frentes pode comprometer a efetividade das políticas industriais, de acordo com a análise.
Além disso, alguns setores industriais ainda lidam com a restrita capacidade de inovação, investimentos escassos em pesquisa e dependência de tecnologia importada. Esses fatores podem limitar o valor agregado da produção nacional e fragilizar a inserção do país nas cadeias globais da economia verde. O cenário para pequenas e médias empresas pode ser ainda mais complexo devido aos custos elevados de adaptação à transição tecnológica, falta de crédito, dificuldade de acesso a tecnologias limpas e carência de mão de obra qualificada.
A escassez de profissionais qualificados é outro entrave ao avanço das iniciativas climáticas no Brasil. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027 para atender às novas demandas industriais, incluindo aquelas associadas à economia verde, o que exigirá investimentos tanto na formação básica e superior quanto na requalificação da força de trabalho já ativa.
O financiamento climático insuficiente pode ser outro gargalo. Segundo estudo de 2023 do Fórum Econômico Mundial, estima-se que o Brasil precisará investir cerca de US$ 200 bilhões (aproximadamente 1 trilhão de reais) até 2030 para cumprir suas metas de redução de emissões. Contudo, o montante destinado para essa finalidade pelo país até agora é de menos de US$ 100 bilhões.
Para superar esses obstáculos, algumas ações são fundamentais. A primeira delas é consolidar um ambiente regulatório confiável, com regras claras para o mercado de carbono, a transição energética e o investimento sustentável.
A segunda prioridade é ampliar a capacidade de inovação e produção nacional de tecnologias limpas. Isso exige políticas industriais com metas setoriais bem definidas, estímulo à produção local de equipamentos estratégicos (como turbinas, eletrolisadores e componentes de baterias) e implementação de uma agenda de educação e qualificação profissional voltada à economia verde.
Outra frente indispensável é o fortalecimento da colaboração entre governo, iniciativa privada e sociedade civil. A construção de estratégias setoriais de descarbonização, com metas, cronogramas e indicadores claros, pode orientar investimentos e acelerar a transformação. Espaços estruturados de diálogo, como fóruns empresariais e programas de assistência técnica, também ajudam a alinhar interesses e gerar confiança mútua.
No setor agropecuário, que é um dos pilares da economia brasileira, práticas regenerativas como o sistema integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), a recuperação de áreas degradadas e o uso de bioinsumos podem ajudar a mitigar emissões e conservar ecossistemas locais. O Brasil pode, ainda, se consolidar como um polo de referência na geração de créditos de carbono, graças à sua rica biodiversidade e ao potencial de reflorestamento. Já no setor energético, o avanço de soluções como hidrogênio verde, biometano e combustíveis sustentáveis de aviação pode colocar o Brasil como exportador de soluções para a descarbonização global.
O Brasil reúne diversos elementos para se tornar um dos protagonistas da transição global para uma economia de baixo carbono: uma matriz energética majoritariamente renovável, uma base produtiva relevante, vasto capital natural e crescente influência diplomática e política. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios estruturais, como o desmatamento ilegal, lacunas em políticas industriais, barreiras à inovação e um mercado de financiamento climático ainda incipiente. A concretização do protagonismo brasileiro depende da capacidade de transformar essas fragilidades em alavancas estratégicas, por meio de políticas públicas consistentes, coordenação entre setores, estímulo à inovação e fortalecimento de mecanismos financeiros. Se conseguir avançar com determinação, o Brasil poderá liderar a construção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável e competitivo para o século XXI.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Da Transição Energética à Liderança Climática: O Potencial do Brasil no Novo Cenário Global. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/brasil-lideranca-climatica. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #EconomiaVerde #TransiçãoEnergética #Bioeconomia #Descarbonização #COP30
Fontes consultadas
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