Erosão Costeira

Desafios e Caminhos para a Adaptação à Emergência Climática

Autor
Observatório Sistema Fiep - 08/12/2025

Em um minuto:

  • A erosão costeira está se acelerando no mundo, colocando quase 900 milhões de pessoas em risco. No Brasil, o fenômeno afeta, hoje, cerca de 60% das praias. O avanço do mar provoca perda de áreas urbanizadas, deslocamento de famílias e danos a infraestruturas.
  • As mudanças climáticas impulsionam o agravamento do fenômeno, com o nível do mar subindo em ritmo recorde, influenciado pela expansão térmica dos oceanos e pelo derretimento de geleiras.
  • As respostas passam por planejamento urbano e soluções integradas, combinando obras de engenharia (como quebra-mares e reposição de areia), restauração de ecossistemas, como dunas, manguezais e restingas, e iniciativas como o Projeto Orla. A proteção do litoral depende da adaptação climática, da gestão territorial e da recuperação dos ambientes naturais, que funcionam como barreiras de defesa.

As paisagens litorâneas estão passando por transformações em velocidade sem precedentes. A erosão costeira, processo natural que vem se intensificando nas últimas décadas, avança em ritmo acelerado e já atinge cerca de 60% das praias brasileiras ao longo de mais de 10 mil quilômetros de costa. No mundo, quase 900 milhões de pessoas vivem em áreas vulneráveis ao recuo da linha de costa, um sinal de que o problema é global e crescente.

Os efeitos da erosão acelerada já são perceptíveis no cotidiano de muitas regiões costeiras. Diante do fenômeno, as cidades litorâneas perdem áreas urbanizadas para o mar, famílias precisam abandonar suas casas e estruturas são danificadas. Além disso, à medida que o mar avança, a água salgada também pode invadir poços, provocar a salinização de aquíferos e alterar ecossistemas.

O processo erosivo se agrava quando combinado com eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, como tempestades e ciclones, que remodelam as zonas costeiras ao redor do planeta. No Brasil, o cenário é ainda mais delicado no Norte e Nordeste, onde a baixa declividade das praias favorece o avanço do mar. A seca prolongada no sertão nos últimos anos reforçou o problema: com menos sedimentos chegando aos rios, o oceano passou a retirar areia em um ritmo mais intenso, acelerando o recuo da linha de costa.

Fenômeno natural, a erosão costeira alastra-se em ritmo acelerado devido aos impactos das mudanças climáticas. A elevação do nível do mar, hoje mais rápida do que em qualquer outro período recente, é um dos principais fatores de agravamento. Nas últimas três décadas, o ritmo médio global de subida do mar mais que dobrou, chegando a 4,77 mm por ano entre 2014 e 2023.

A aceleração dos processos erosivos é também impulsionada pela combinação entre a expansão térmica dos oceanos, que absorvem o excesso de calor proveniente do aquecimento global, e o derretimento de geleiras, especialmente na Antártica e Groenlândia. Mesmo em cenários moderados de emissões de gases de efeito estufa, estudos indicam que o derretimento apenas do gelo antártico pode resultar em mais de um metro de elevação do nível médio do mar até o ano 2200, horizonte que coloca as cidades costeiras sob pressão crescente.

Apesar dos efeitos significativos, a mudança do clima não age sozinha. A ocupação intensiva da orla, embora fruto da expansão urbana, também pode alterar a dinâmica natural das correntes marítimas e afetar o transporte de sedimentos, contribuindo para a erosão costeira.

 

Do planejamento urbano baseado nas mudanças climáticas às soluções naturais: estratégias para a proteção de zonas costeiras

Lidar com a erosão costeira requer planejamento de longo prazo e integração entre políticas públicas, gestão territorial e adaptação às mudanças climáticas. Um dos caminhos fundamentais é o aprimoramento do planejamento urbano, com instrumentos de uso da terra que incorporem medidas preventivas, mapas de risco, diretrizes para ocupação de áreas vulneráveis e políticas baseadas em evidências científicas.

Entre as medidas adotadas ao redor do mundo, as soluções tradicionais, como quebra-mares, paredões e outras obras de engenharia, estão entre as alternativas mais utilizadas. Contudo, sua efetividade depende das características específicas de cada trecho de costa. Em alguns contextos, essas obras podem alterar a dinâmica das ondas e o transporte de sedimentos, o que pode gerar efeitos indiretos em áreas vizinhas. A reposição de areia na área erodida, frequentemente utilizada em praias turísticas, também é considerada uma opção, embora demande altos investimentos, estudos detalhados e monitoramento constante de impactos.

Nos últimos anos, as soluções baseadas na natureza vêm ganhando destaque para a contenção dos processos erosivos. A restauração de ecossistemas costeiros, incluindo dunas, restingas, manguezais e florestas de algas, é apontada como uma estratégia promissora para aumentar a resiliência frente ao avanço do mar. Dunas bem conservadas atuam como barreiras naturais; restingas estabilizam sedimentos e mantêm a biodiversidade local; manguezais reduzem a energia das ondas e protegem áreas urbanas; e florestas de algas ajudam a minimizar os impactos de eventos extremos como tempestades. Esses ecossistemas funcionam como a primeira linha de defesa nas áreas costeiras, ao mesmo tempo em que promovem serviços ambientais essenciais.

Técnicas de bioengenharia também vêm sendo incorporadas ao arsenal de combate à erosão, combinando materiais naturais e soluções de baixo impacto. Hidrossemeadura, mantas biodegradáveis e tapetes de fibras vegetais, por exemplo, são utilizados para estabilizar encostas e recuperar trechos degradados. Em algumas regiões, recifes artificiais têm sido construídos para reduzir a força das ondas e favorecer a formação de habitats marinhos, juntando engenharia e processos ecológicos.

No Brasil, novas iniciativas também buscam fortalecer a capacidade de adaptação dos municípios. Durante a COP30, o Ministério das Cidades firmou o Acordo de Cooperação Técnica do Projeto Orla, em parceria com outros ministérios e instituições. O acordo oferece suporte para a gestão integrada da zona costeira, incentiva o planejamento estratégico, a capacitação de equipes locais e a maior autonomia municipal na administração das praias, conciliando uso econômico do território, conservação ambiental e adaptação climática.

A erosão costeira é um fenômeno global, crescente e complexo, mas não inevitável. A resposta mais eficaz combina engenharia, natureza e governança, com decisões orientadas pela ciência e pelo planejamento territorial. Em suma, proteger o litoral significa compreender sua dinâmica, recuperar ecossistemas e preparar as cidades para um século marcado pelo avanço das águas.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Erosão Costeira: Desafios e Caminhos para a Adaptação à Emergência Climática. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/erosao-costeira. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

#MudançasClimáticas #ClimateChange #COP30 #ErosaoCosteira #CoastalErosion #CoastalResilience

 

Fontes consultadas

DANNEMANN, V./G1. Erosão costeira ameaça praias em toda América Latina. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2025/09/28/erosao-costeira-ameaca-praias-em-toda-america-latina.ghtml. Acesso em: 2 dez. 2025.

FIORAVANTI, C./PESQUISA FAPESP. A progressiva destruição das praias brasileiras. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/a-progressiva-destruicao-das-praias-brasileiras/. Acesso em: 2 dez. 2025.

INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS OCEÂNICAS. O oceano está subindo: dados revelam elevação recorde do nível do mar nos últimos 30 anos. Disponível em: https://inpo.org.br/o-oceano-esta-subindo-o-que-os-dados-oficiais-revelam-sobre-a-elevacao-do-nivel-do-mar/. Acesso em: 2 dez. 2025.

MINISTÉRIO DAS CIDADES. Ministério das Cidades firma acordo para desenvolvimento orlas brasileiras. Disponível em: https://www.gov.br/cidades/pt-br/assuntos/noticias-1/noticia-mcid-n-1749. Acesso em: 2 dez. 2025.

SADAI, S.; KARMALKAR, A./THE CONVERSATION. Cientistas mapeiam onde o derretimento do gelo na Antártica vai mais elevar o nível do mar. Disponível em: https://theconversation.com/cientistas-mapeiam-onde-o-derretimento-do-gelo-na-antartica-vai-mais-elevar-o-nivel-do-mar-270870. Acesso em: 2 dez. 2025.

VICK, M./NEXO. O que é a erosão costeira. E como cidades lidam com ela. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2024/01/04/o-que-e-a-erosao-costeira-e-como-cidades-lidam-com-ela. Acesso em: 2 dez. 2025.

WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION. Coastal erosion. Disponível em: https://www.wipo.int/web-publications/green-technology-book-solutions-for-confronting-climate-disasters/en/coastal-erosion.html. Acesso em: 2 dez. 2025.


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