Wild Cards do Clima
Fatos Inesperados na Luta Contra a Crise Climática
Em um minuto:
- Wild cards climáticos: eventos inesperados, raros e difíceis de prever que podem ter grande impacto no enfrentamento da crise climática, introduzindo incertezas e exigindo planejamento e adaptação.
Nos jogos de cartas, um wild card (ou carta coringa) pode mudar o rumo da partida de forma abrupta e inesperada. No planejamento estratégico e em estudos de futuro, o conceito é semelhante: wild cards são eventos raros e pouco previsíveis, mas com potencial para transformar cenários de maneira significativa. Embora não possam ser previstos com exatidão, os wild cards podem — e devem — ser explorados na preparação de estratégias de resposta, facilitando a criação de planos de contingência e de monitoramento de possíveis sinais de alerta para aumentar a resiliência de governos, empresas e setores produtivos.
Por definição, os wild cards apresentam baixa probabilidade de ocorrência, mas, se acontecerem, podem produzir fortes impactos. A pandemia da COVID-19 foi um exemplo claro: antes de 2019, poucas organizações estavam preparadas para um evento dessa magnitude, e as consequências foram profundas.
Por si só, as mudanças climáticas são consideradas uma macrotendência, com impactos de médio e longo prazo em diversos setores. Porém, além das implicações já previstas, dois tipos de eventos inesperados relacionados ao clima podem ocorrer:
1) Ações humanas que geram efeitos climáticos não previstos, como o impacto contraintuitivo da redução da poluição atmosférica na elevação das temperaturas globais ou da popularização de medicamentos que diminuem o apetite e, indiretamente, resultam na redução das emissões de gases de efeito estufa.
2) A própria mudança do clima que desencadeia reações colaterais inusitadas, como eventos extremos que desorganizam cadeias produtivas e forçam adaptações urgentes ou consequências do aquecimento global que provocam distúrbios surpreendentes em ecossistemas e até mesmo em setores inteiros.
Em qualquer uma dessas situações, os wild cards do clima podem introduzir incertezas no planejamento de ações de enfrentamento da crise climática. Esses fatores-surpresa impactam, por exemplo, na capacidade de projeção de emissões, na elaboração de estratégias para mitigação, na antecipação da demanda e no preparo de setores como indústria e produção de energia.
Conheça, a seguir, exemplos de wild cards ligados à ação humana e as implicações para o clima.
Redução da poluição atmosférica na China e mudanças na indústria naval contribuindo para o aquecimento mais acelerado do planeta
O planeta está esquentando, e 2024 foi o ano mais quente já registrado. Contudo, desde 2010, a taxa de aquecimento aumentou de forma mais acelerada. Uma das causas por trás desse fenômeno, curiosamente, pode estar nos esforços da China para reduzir a poluição atmosférica.
Desde a Revolução Industrial, as atividades humanas têm gerado maiores quantidade de gases de efeito estufa, contribuindo para o aumento das temperaturas globais. Entretanto, finas partículas suspensas na atmosfera — os aerossóis de sulfato — vinham mascarando parte desse aquecimento ao refletirem parte da radiação solar de volta para o espaço e influenciarem a formação de nuvens, que também ajudam a dissipar o calor.
Esse efeito de resfriamento dos aerossóis, porém, foi reduzido nas últimas décadas, conforme políticas ambientais mais rigorosas foram adotadas em muitos países para melhorar a qualidade do ar. Com a menor concentração dessas partículas, menos calor passou a ser refletido, contribuindo para o aumento das temperaturas no planeta.
Entre 1970 e 2010, a temperatura média da Terra subia a uma taxa de 0,18 °C por década. A partir de 2010, esse ritmo aumentou para 0,25 °C por década. Estima-se que o aquecimento extra, anteriormente “escondido” pelos aerossóis, represente cerca de 5% do aumento total da temperatura global desde 1850.
E qual o papel da China? No início dos anos 2000, a qualidade do ar na China atingiu níveis alarmantes devido à rápida industrialização. Para enfrentar o problema, o país adotou medidas rigorosas de controle da poluição, como regulamentações mais rígidas para emissões veiculares, instalação de filtros e purificadores em usinas movidas a carvão e expansão da frota de veículos elétricos.
Essas e outras ações resultaram na redução de 75% das emissões de dióxido de enxofre (SO₂), gás precursor dos aerossóis de sulfato. Embora essa mudança tenha melhorado a saúde pública — prevenindo cerca de 150 mil mortes prematuras por ano no país asiático—, teve um efeito colateral inesperado: a remoção do “escudo” de aerossóis que ajudava a reduzir o impacto do aquecimento global.
O dióxido de enxofre (SO2) é o gás precursor dos aerossóis de sulfato, que atuam na atmosfera como “resfriadores”. Desde 2010, as emissões no Sudeste Asiático, em particular na China, vêm diminuindo em função das políticas para melhorar a qualidade do ar. IMAGEM: NewScientist
A China não foi a única a promover políticas que, sem querer, alteraram o equilíbrio climático. Em 2020, a Organização Marítima Internacional estabeleceu novas regras para diminuir a concentração de enxofre no combustível naval e reduzir as emissões de SO₂ no setor marítimo. Com isso, a poluição sobre os oceanos diminuiu, mas também foi reduzido o efeito de resfriamento associado aos aerossóis, o que pode ter acelerado ainda mais o aquecimento global.
Esses fatos mostram como as políticas ambientais e climáticas também podem gerar efeitos inesperados. Melhorar a qualidade do ar é essencial para a saúde pública, mas também pode alterar os processos atmosféricos de maneiras que precisam ser cuidadosamente estudadas. Assim, o desafio está em equilibrar ações que beneficiem tanto as pessoas quanto o planeta, sem resultar em novas ameaças climáticas.
Remédios para obesidade e redução das emissões de gases de efeito estufa
O Ozempic®, medicamento lançado em 2017 para tratar diabetes tipo 2, chamou a atenção por um dos seus efeitos colaterais: a redução do apetite e a consequente perda de peso. Em 2021, um medicamento com o mesmo princípio ativo, a semaglutida, mas com dosagem mais alta, o Wegovy®, foi aprovado para tratamento da obesidade. Desde então, a demanda global por esses remédios disparou.
O impacto desses medicamentos vai além da saúde. Grandes redes de fast-food, como o McDonald’s, já registram queda na venda de determinados lanches, reflexo da menor ingestão calórica por parte dos consumidores. Essa mudança pode ter implicações ambientais: com menos demanda por alimentos ultraprocessados e ricos em gorduras, há redução no consumo de óleos vegetais como milho e soja, que podem, então, ser aplicados para outros processos. Essas culturas, além de servirem para alimentação, também são utilizadas na produção de biocombustíveis, o que pode alterar a dinâmica do mercado energético.
Outro impacto relevante é relativo aos produtos de origem animal. Como muitos desses medicamentos induzem a redução da quantidade de alimentos ingeridos, o consumo tende a diminuir. Esse fenômeno é significativo porque a agropecuária é um dos principais setores emissores de gases de efeito estufa. Assim, a mudança na dieta impulsionada por esses remédios pode, indiretamente, contribuir para a redução das emissões globais.
Além da alimentação, o setor de transportes também pode sentir os efeitos dessa transformação. Companhias aéreas já analisam o impacto da perda de peso médio da população em seus custos operacionais. Como aviões gastam mais energia para transportar cargas mais pesadas, a redução no peso dos passageiros pode representar economia no consumo de combustível — e, consequentemente, na emissão de gases responsáveis pelo aquecimento global.
Os exemplos anteriores mostram como as ações humanas podem desencadear impactos inesperados nas ações climáticas. No entanto, as mudanças climáticas e os eventos extremos a elas associados também seguem uma dinâmica complexa e podem provocar efeitos colaterais inesperados em diversas situações, como destacamos a seguir.
A conexão entre floresta e geleiras: queimadas na Amazônia e o derretimento na Antártida
No Brasil, o número de incêndios florestais aumentou em 2024 em relação aos anos anteriores. Somente na Amazônia, os incêndios florestais no ano passado foram os mais numerosos em 17 anos, situação agravada pela seca histórica que assola a região e pela elevação das temperaturas globais.
As queimadas na Amazônia geram fuligem, que, recentemente, foi identificada como um dos fatores responsáveis pela aceleração do derretimento das geleiras na Antártida, localizada a mais de 6 mil quilômetros de distância. A fumaça das queimadas sobe até 5 quilômetros de altitude e é carregada até a Península Antártica por meio do vento. Ao entrar em contato com a neve, a fuligem aquece o gelo, levando ao seu derretimento.
A relação entre o aumento das queimadas na Amazônia e o derretimento acelerado das geleiras na Antártida constitui um efeito colateral que pode intensificar o aquecimento global. Já se sabia que a fuligem absorve calor e acelera o derretimento do gelo, e que partículas das queimadas amazônicas percorriam longas distâncias, mas a real dimensão desse impacto na Antártida ainda era pouco conhecida.
O derretimento das geleiras, por sua vez, pode ter consequências importantes para a vida na Terra, provocando, por exemplo, a elevação do nível dos mares e colocando em risco a segurança hídrica para milhões de pessoas.
As mudanças climáticas também podem causar impactos imprevistos em diversos setores e atividades industriais, como discutido a seguir.
Maior dificuldade na detecção de submarinos
O aquecimento dos oceanos, que já ultrapassou 0,88 °C desde o período pré-industrial, altera a temperatura, pressão e salinidade da água do mar, afetando a propagação dos sinais acústicos usados para detectar submarinos. Com isso, se torna mais difícil detectar essas embarcações em longas distâncias. Esse fenômeno pode ter implicações para a segurança dos países, que precisarão adaptar suas estratégias militares e investir em avanços tecnológicos.
Viagens áreas mais turbulentas
As mudanças climáticas estão intensificando a turbulência de ar limpo, fenômeno causado por correntes de ar erráticas, difíceis de prever e detectar. Estima-se que sua frequência possa dobrar ou triplicar nas próximas décadas devido às alterações nos padrões atmosféricos. Além de impactar a segurança dos viajantes — sendo uma das principais causas de ferimentos graves a bordo —, a turbulência gera prejuízos milionários para as companhias aéreas em função dos danos às aeronaves e atrasos nos voos.
Maior acúmulo de lixo espacial
As mudanças climáticas não afetam apenas a superfície terrestre, mas também a órbita do planeta. Um estudo publicado na Nature Sustainability, indica que o aquecimento global pode reduzir a capacidade da atmosfera de "limpar" o lixo espacial até o final do século. Isso ocorre porque o efeito estufa aquece a superfície terrestre, mas resfria as camadas superiores da atmosfera, tornando-as menos densas. Com menos resistência atmosférica devido às mudanças climáticas, os detritos espaciais – que normalmente seriam arrastados para reentrada e incineração – permanecem em órbita por mais tempo.
Esse acúmulo crescente de detritos pode tornar o espaço orbital mais perigoso para satélites, aumentando o risco de colisões e interferindo em sistemas essenciais de comunicação, navegação, previsão do tempo e segurança nacional. Dessa forma, empresas de tecnologia e telecomunicações, que dependem de satélites para fornecer serviços essenciais, podem enfrentar desafios operacionais e financeiros no futuro devido a interrupções e danos às suas infraestruturas.
Em um mundo em transformação, os wild cards do clima são uma lembrança que a incerteza é uma constante. Embora não se possa prever exatamente quando ou como esses eventos ocorrerão, seus impactos podem ser profundos e disruptivos. Por isso, a antecipação e a adaptação à emergência climática devem fazer parte das estratégias de planejamento, tornando sociedades e setores econômicos mais resilientes e responsivos.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Wild Cards do Clima: Fatos Inesperados na Luta Contra a Crise Climática. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/wild-cards-do-clima. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #WildCards #SurpresasDoClima #Sustentabilidade #Ciência #FuturoDoPlaneta
Fontes consultadas
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