Cidades Responsivas
Tecnologia, sustentabilidade, coletividade
No principal relatório da ONU-Habitat, State of the World Cities de 2008/09, as cidades foram caracterizadas como uma das criações mais complexas da humanidade, nunca concluída, nunca definitiva. Elas são como uma jornada sem fim. Elas representam o passado, o presente e o futuro. Segundo estimativas da ONU, 70% da população mundial viverá em áreas urbanas até 2050. No Brasil, esse movimento será ainda mais acentuado: até 2030, 91% dos brasileiros residirão em cidades. Esse adensamento populacional trará novos problemas, agravará os já existentes e gerará novas demandas.
Khatoun e Zeadally (2016) falam sobre um novo urbano, denominado “cidade inteligente” que consiste no uso da Internet das Coisas (IoT), Internet dos Serviços (IoS), Internet dos Dados (IoD) e a Internet das Pessoas (IoP). As tecnologias têm expandido a percepção de diversos aspectos urbanos, mostrando-se eficazes em monitorar, analisar e prever cenários urbanos, oferecendo caminhos alternativos para o aproveitamento de informações. O uso eficiente dos dados disponibilizados pelas várias tecnologias orienta o conceito de cidades responsivas, que vai além do proposto nas cidades inteligentes.
Enquanto as SmartCities ou cidades inteligentes, se concentram em oferecer recursos tecnológicos, as cidades responsivas buscam utilizar as tecnologias e o compartilhamento de dados coletados, de forma a inserir a população na tomada de decisões. No conceito central de responsividade, os cidadãos podem fornecer suas impressões e demandas, compartilhando suas experiências urbanas, contribuindo com inputs essenciais para a criação de soluções e tornando-se efetivamente conscientes de seu papel de protagonista. Investir na formação e no acesso ao desenvolvimento humano de todos os indivíduos, viabilizando e aperfeiçoando uma sociedade baseada em dados, que busca alcançar sustentabilidade, bem-estar coletivo e protagonismo dos cidadãos, é o ponto de partida para uma sociedade responsiva, uma Sociedade 5.0.
Ao falar de cidades responsivas e inteligentes, que utilizam a tecnologia para propor soluções inovadoras, é comum que se acredite na necessidade de um aparato tecnológico robusto, mas na verdade, um dos aspectos centrais é a forma como essa tecnologia é operacionalizada. É fundamental haver uma governança de dados dentro das organizações públicas e privadas, e crucial saber tratar e transversalizar essas informações, para obter insights preditivos baseados na realidade.
Portanto, cidades responsivas são mais dinâmicas, respondendo melhor à necessidade de adaptação e ampliando o conceito de coletividade. Elas conseguem construir insumos digitais que ampliam a escuta das opiniões e sugestões dos cidadãos, acelerando o processo de agir sobre o que ouvem e coletando informações sobre aspectos que os próprios moradores identificam como importantes, contribuindo para a gestão da cidade (Goldsmith e Gardner, 2022).
Cada cidade tem suas próprias prioridades sociais, desafios ambientais e de infraestrutura, mas também pontos fortes distintos em termos de habilidades e recursos. Nesse contexto, a cidade responsiva emerge como uma gestão que permite que a cidade opere de forma autônoma em seu ambiente, com a tecnologia servindo como um meio para realizar ações, e não como um fim em si mesma (Noussair, Jihad, e Hajar, 2018).
Como exemplos de cidades responsivas, podemos citar:
Copenhague (Dinamarca) - referência em planejamento urbano sustentável, sendo considerada um exemplo de cidade responsiva. A cidade adotou uma abordagem holística que prioriza o uso de bicicletas como meio de transporte, oferece amplas áreas verdes e espaços públicos acessíveis, além de incentivar a participação da comunidade nas decisões urbanas.
Songdo (Coreia do Sul) - cidade planejada e projetada como uma cidade inteligente e responsiva. Utiliza tecnologias avançadas, monitora e controla o consumo de energia, gerencia o tráfego de forma eficiente e utiliza sistemas inteligentes para a gestão de resíduos, proporcionando uma alta qualidade de vida para seus habitantes.
Medellín (Colômbia) - modelo de como o urbanismo responsivo pode transformar uma cidade, com investimentos em infraestrutura, transporte público, revitalização de áreas urbanas e programas sociais, a cidade conseguiu reduzir a violência, melhorar a mobilidade e promover a inclusão social.
Podemos citar algumas práticas de urbanismo aplicadas em cidades responsivas:
Planejamento participativo: Em cidades responsivas, a tecnologia e o compartilhamento de dados são utilizados, para envolver ativamente os cidadãos e assegurar que as necessidades e desejos da comunidade sejam atendidos. Isso pode ser realizado por meio de consultas públicas, grupos de trabalho e parcerias com organizações locais, permitindo que a voz da comunidade seja ouvida e considerada em todas as etapas do planejamento urbano.
Uso eficiente de recursos: As cidades responsivas implementam estratégias para otimizar o consumo de recursos naturais, como água e energia. Isso pode incluir o uso de energias renováveis, sistemas de coleta de água da chuva, edificações com alta eficiência energética e programas de reciclagem e compostagem. Essas práticas visam minimizar o impacto ambiental e promover a sustentabilidade urbana.
Promoção de mobilidade sustentável: Nessas cidades, o transporte público, a infraestrutura para pedestres e ciclovias são priorizados. Incentivar o uso de meios de transporte não motorizados contribui para a redução da poluição do ar, melhora a saúde da população e diminui o congestionamento nas vias urbanas. A mobilidade sustentável é essencial para criar um ambiente urbano mais saudável e acessível para todos os habitantes.
Integração de tecnologia: As cidades responsivas utilizam a tecnologia de forma inteligente para melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos. Isso pode incluir a implementação de sistemas de transporte inteligente, sensores para monitoramento ambiental, plataformas digitais para a participação cidadã e soluções de governança eletrônica. A integração tecnológica permite uma gestão urbana mais eficiente e responsiva às necessidades da população, facilitando a comunicação e a participação ativa dos cidadãos no desenvolvimento da cidade.
O conceito de cidade responsiva transcende a simples digitalização, pois utiliza a tecnologia colaborativa para identificar necessidades antecipadas ou latentes. Esse conceito abrange uma abordagem holística, onde a tecnologia não apenas automatiza processos, mas também cria um ambiente interativo e dinâmico entre os cidadãos e a infraestrutura urbana. A troca de experiências sobre diferentes recursos urbanos pode fortalecer a demanda por melhorias em ruas, parques, ciclovias, e outros espaços e serviços que requerem intervenção. Essas interações geram uma base de dados rica e diversificada, que pode ser utilizada para planejar e implementar melhorias urbanas de maneira mais eficiente e centrada nas necessidades reais da comunidade.
No transporte público, a observação das dinâmicas de deslocamento, tanto por órgãos governamentais quanto pela população, facilita a implementação de mudanças para otimizar o fluxo de passageiros e ampliar a capacidade de transporte quando necessário. Ferramentas como aplicativos de monitoramento em tempo real e plataformas de feedback permitem que os usuários reportem problemas e sugiram melhorias, tornando o sistema de transporte mais responsivo e adaptável às demandas diárias.
A segurança pública também se beneficia em uma cidade responsiva, pois os dados coletados e compartilhados entre diferentes órgãos podem promover melhorias significativas. O uso de câmeras de vigilância inteligentes, sensores de movimento e sistemas de alerta em tempo real são exemplos de como a tecnologia pode ser integrada para aumentar a segurança urbana. Essa colaboração resulta em tempos de resposta mais rápidos em situações de emergência. A análise de dados históricos também pode ajudar a identificar padrões e prever áreas de risco, permitindo uma atuação preventiva mais eficaz. Além disso, a adoção de tecnologias verdes e sustentáveis, como painéis solares, sistemas de energia eólica e infraestrutura para veículos elétricos, pode ser ampliada em cidades responsivas. A integração de sistemas inteligentes de gestão de recursos, que monitoram e ajustam o consumo de energia e água em tempo real, pode reduzir desperdícios e melhorar a eficiência energética das cidades.
Nos serviços urbanos, a tecnologia colaborativa permite que os indivíduos sejam participantes ativos e conscientes na gestão das cidades, oferecendo avaliações, sugestões e demandas de forma voluntária. Plataformas digitais podem ser utilizadas para coletar opiniões sobre serviços como coleta de lixo, manutenção de vias públicas e iluminação, proporcionando uma gestão mais transparente e participativa. Além disso, essas plataformas podem servir como canais de comunicação direta entre os cidadãos e os gestores urbanos, facilitando a resolução rápida de problemas e a implementação de novas iniciativas.
Em suma, o conceito de cidade responsiva envolve uma transformação profunda na maneira como as cidades são planejadas e geridas. Ao integrar tecnologia colaborativa e participação cidadã, é possível criar ambientes urbanos mais eficientes, seguros e sustentáveis, onde a voz de cada indivíduo contribui para o desenvolvimento coletivo.
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Fontes:
Cidades responsivas: esse modelo de gestão urbana pode beneficiar a experiência turística?
Disponível em: https://cajapio.ufma.br/index.php/turismoecidades/article/view/22745/12798
Cidades Responsivas: utopia, ficção, ou uma nova realidade?
Disponível em: https://revistaarea.com.br/cidades-responsivas-utopia-ficcao-ou-uma-nova-realidade/
Entenda o conceito de cidades responsivas
Disponível em: https://www.cidadepedrabranca.com.br/blog/cidades-responsivas/
GOLDSMITH, S.; GARDNER, B. Implementing Digital Infrastructure Responses to Equity, Sustainability, and Safety. Data-Smart City Solutions, Harvard Kennedy School, November 2022
Disponível em: https://nrs.harvard.edu/URN-3:HUL.INSTREPOS:37377432
KHATOUN, R.; ZEADALLY, S. Smart cities: concepts, architectures, research opportunities. Communications of the ACM, v. 59, n. 8, p. 46-57, 2016.
Disponível em: https://dl.acm.org/doi/abs/10.1145/2858789
NOUSSAIR, L.; JIHAD, Z.; HAJAR, M. Responsive Cities and Data Gathering: challenges and opportunities. Proceedings of the 3rd International Conference on Smart City Applications, p. 1-8, 2018.
Disponível em: https://dl.acm.org/doi/abs/10.1145/3286606.3286794
O que são cidades responsivas?
Disponível em: https://summitmobilidade.estadao.com.br/urbanismo/o-que-sao-cidades-responsivas/
O cidadão como protagonista da cidade
Disponível em: https://exame.com/colunistas/instituto-millenium/o-cidadao-como-protagonista-da-cidade/
United Nations Human Settlements Programme (UN-Habitat). World Cities Report 2022 - Envisaging the Future of Cities.
Disponível em: https://unhabitat.org/wcr/
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