Emergência Climática e Perdas de Água
Os Desafios da Segurança Hídrica no Brasil
Em um minuto:
- Recursos hídricos no Brasil: embora concentre cerca de 12% da água doce superficial do planeta, o país enfrenta crescente insegurança hídrica devido à distribuição desigual da água, à degradação ambiental e à intensificação das secas e estiagens associadas às mudanças climáticas.
- Desperdício de água tratada: cerca de 40% da água tratada no país se perde antes de chegar às torneiras, o equivalente a 5,8 bilhões de m³ por ano, volume capaz de abastecer 50 milhões de pessoas. As perdas superam o patamar considerado aceitável (25%) e revelam desigualdades regionais.
- Crise hídrica agravada pela emergência climática: a combinação entre as perdas elevadas e a redução da disponibilidade hídrica acarreta impactos sociais e econômicos em diversos setores, como agricultura, geração de energia e indústria. Reduzir o desperdício passa a ser uma medida central de adaptação climática, exigindo investimentos, tecnologia e governança voltada ao uso eficiente da água.
Apesar do Brasil concentrar cerca de 12% da água doce superficial do planeta, a ideia de abundância esconde um quadro cada vez mais frágil. A distribuição territorial da água é desigual, e a pressão sobre os recursos hídricos cresce em um contexto marcado pelas mudanças climáticas. Secas e estiagens mais frequentes e intensas, combinadas à degradação ambiental, colocam em xeque a segurança hídrica em diferentes regiões do país, e as evidências indicam que esse cenário tende a se prolongar nas próximas décadas.
Um dos fatores que agravam o risco de insegurança hídrica no Brasil é o elevado volume de perdas nos sistemas de abastecimento. Segundo o “Estudo de Perdas de Água 2025 (SINISA, 2023)”, do Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, o país desperdiça, em média, 40% da água tratada antes que ela chegue ao consumidor final. Em termos práticos, isso significa que, a cada cinco litros de água tratada, dois litros são perdidos ao longo da rede de distribuição. Em 2023, ano de referência do estudo, essas perdas somaram 5,8 bilhões de metros cúbicos, volume suficiente para abastecer 50 milhões de pessoas por um ano. Em escala diária, o desperdício equivale a mais de 6.300 piscinas olímpicas de água limpa jogadas fora todos os dias.
As causas das perdas hídricas são, principalmente, os vazamentos em redes antigas, fraudes, ligações clandestinas, falhas de medição e baixa eficiência operacional. Hoje, as perdas no Brasil superam o patamar considerado aceitável internacionalmente, de 25% (ou 1 a cada 4 litros). Caso o país conseguisse atingir esse nível de referência, seria possível economizar cerca de R$ 34,6 bilhões até 2033, apenas com a redução de custos operacionais e de obras emergenciais. Inclusive, a Portaria n° 490/2021, do Ministério do Desenvolvimento Regional, estabeleceu a meta de 25% para os municípios brasileiros até 2034 como condição para acesso a recursos públicos federais, mas a distância entre o objetivo e a realidade ainda é grande para muitas cidades.
Os dados de perdas hídricas revelam ainda desigualdades regionais expressivas. Norte e Nordeste apresentam os maiores índices, acima de 45%, com destaque para o estado de Alagoas, onde quase 70% da água tratada não chega às torneiras. Também chama atenção o desempenho do Sudeste, que, apesar de ser o principal centro econômico do país, registrou aumento de 2,5 pontos percentuais nas perdas em relação a 2019, o que sugere que nem mesmo regiões com maior capacidade de investimento têm conseguido reduzir o desperdício de água.
As perdas de água se tornam ainda mais críticas diante da intensificação das secas associadas à emergência climática. Nos últimos anos, diferentes regiões do país enfrentaram episódios severos de escassez hídrica. A Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, registrou em setembro de 2025 o menor volume armazenado nos mananciais para essa época do ano desde 2013, às vésperas da pior crise hídrica de sua história. Tendências semelhantes são observadas no Nordeste, no Centro-Oeste, no Sul e até na Amazônia, onde rios essenciais ao abastecimento e ao transporte atingiram níveis mínimos históricos.
A combinação entre perdas elevadas e redução da disponibilidade hídrica cria um efeito cumulativo potencialmente perigoso. Em um país em que mais de 108 milhões de pessoas já foram afetadas por secas e estiagens entre 2015 e 2024, a escassez de água agrava vulnerabilidades socioeconômicas. Os impactos da insegurança hídrica vão além do abastecimento humano e afetam a agricultura, a indústria e a geração de energia, fortemente dependente das hidrelétricas no Brasil.
Diante das mudanças do clima, a redução de perdas hídricas deixa de ser apenas uma questão de eficiência operacional e passa a ser uma estratégia central de adaptação e resiliência climática. Os avanços nesse campo exigem investimentos na modernização das redes de distribuição, adoção de tecnologias e fortalecimento da governança com foco no uso eficiente da água em um cenário de escassez crescente de recursos naturais.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Emergência Climática e Perdas de Água: Os Desafios da Segurança Hídrica no Brasil. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/perdas-agua-segurança-hidrica. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #CriseHídrica #SegurançaHídrica #DesperdícioDeÁgua #RecursosHídricos #GestãoDaÁgua #Saneamento
Fontes consultadas
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Relatório Pleno Conjuntura dos Recursos Hídricos do Brasil 2025. Disponível em: https://conjuntura-2025.webflow.io/. Acesso em: 16 dez. 2025.
BARRÊTO, S./THE NATURE CONSERVANCY. O Que a Nova Escassez Hídrica Revela Sobre o Brasil. Disponível em: https://www.tnc.org.br/conecte-se/comunicacao/artigos-e-estudos/o-que-a-nova-escassez-hidrica-revela-sobre-o-brasil/. Acesso em: 16 dez. 2025.
CAVALCANTI, G./NEXO JORNAL. A cada 5 litros, 2 pelo ralo: o desperdício de água no Brasil. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/externo/2025/12/02/desperdicio-de-agua-brasil-dados. Acesso em: 15 dez. 2025.
INSTITUTO TRATA BRASIL. Estudo de Perdas de Água de 2025 (SINISA, 2023): Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil. Disponível em: https://tratabrasil.org.br/perdas-de-agua-2025/. Acesso em: 16 dez. 2025.